Associação Musical de Freamunde - Banda Filarmónica
Corpo de Deus
Seroa

Corpo de Deus da Seroa – Um dia de fé, tradição e música
Há festas que se vivem. Há festas que se sentem. E há festas que permanecem na memória muito para além do último acorde.
Foi assim o dia 4 de junho, na Seroa.
A manhã despertou envolta num manto de nuvens cinzentas. O nevoeiro pairava suavemente sobre a paisagem e a chuva, tímida e passageira, foi marcando os primeiros momentos de um dia que prometia ser especial. Pelas 9 horas, a Banda da Associação Musical de Freamunde deu entrada na festa juntamente com os mordomos, num ambiente de expectativa e devoção que só as grandes tradições conseguem criar.
Os primeiros sons da banda ecoaram pelas ruas da Seroa como um anúncio de que a festa estava viva. A música, companheira inseparável das celebrações populares, foi enchendo o espaço e preparando os corações para a solenidade da Missa em honra do Santíssimo Corpo de Deus.
A Festa do Corpo de Deus é uma das mais belas expressões da fé cristã. A sua origem perde-se nos séculos, atravessando gerações que encontraram nesta celebração uma forma de testemunhar publicamente a sua devoção. Na Seroa, esta tradição continua a ser guardada com carinho e respeito, como um património que passa de pais para filhos, mantendo viva uma identidade construída pela fé, pela união e pelo amor à terra.
Há algo de particularmente belo nestas festas. Não são apenas cerimónias religiosas nem simples encontros populares. São momentos em que o passado e o presente caminham lado a lado. São memórias que regressam, histórias que se contam e sentimentos que se renovam a cada ano que passa.
Pelas 11 horas, realizou-se a Missa de Festa, um dos momentos mais marcantes e sentidos de todo o dia. Sob o olhar atento da comunidade reunida, a fé e a música encontraram-se numa celebração que tocou profundamente todos os presentes.
A Banda de Freamunde teve a honra de solenizar a Eucaristia, com alguns dos seus músicos a acompanharem a celebração através dos seus instrumentos. Em simultâneo, outros elementos da banda juntaram-se a membros do Grupo Litúrgico Deo Gratias de Freamunde para formar o coro que deu voz aos diferentes momentos da missa. Desta união nasceu uma harmonia especial, onde vozes e instrumentos se entrelaçaram naturalmente, ajudando a criar um ambiente de profunda espiritualidade.
Ao longo da celebração, a música foi muito mais do que um simples acompanhamento. Foi oração cantada, emoção partilhada e silêncio transformado em melodia. Cada nota e cada palavra pareciam elevar-se juntamente com a fé dos fiéis, enchendo o templo de uma beleza difícil de descrever e impossível de esquecer.
Foi um daqueles momentos raros em que a música cumpre uma das suas mais nobres missões: unir corações, aproximar pessoas e dar uma expressão mais humana e mais sensível ao sagrado.
Da parte da tarde, como se o próprio céu quisesse juntar-se à celebração, o sol acabou por vencer as nuvens. Entre algumas rajadas de vento, a luz devolveu brilho à festa e trouxe ainda mais gente às ruas da Seroa.
Foi então que a Banda de Freamunde voltou a dar voz à emoção através da música. Num concerto pleno de entrega e dedicação, cada obra interpretada honrou a beleza da ocasião e a presença de todos aqueles que fazem destas festas um momento tão especial.
Seguiu-se a procissão, ponto alto da celebração religiosa. Num ambiente de profundo respeito, a comunidade acompanhou o Santíssimo Sacramento pelas ruas ornamentadas, numa manifestação de fé que continua a emocionar quem nela participa. A música acompanhou cada passo, ajudando a criar aquela atmosfera única onde o silêncio, a oração e os sons da banda se unem numa mesma linguagem.
Terminada a procissão, a festa continuou. A música voltou a ocupar o seu lugar de destaque, prolongando os momentos de convívio e alegria até à tradicional despedida das bandas, sempre marcada por sentimentos contraditórios: a satisfação de um dia bem vivido e a nostalgia de saber que os melhores momentos passam depressa.
A Banda de Freamunde deixa uma palavra de sincero agradecimento à Comissão de Festas do Corpo de Deus da Seroa. O cuidado colocado na organização, a dedicação de todos os envolvidos e a forma calorosa como fomos recebidos fizeram-nos sentir verdadeiramente em casa.
Partimos da Seroa com a certeza de que a música continua a ter o poder de unir pessoas, preservar tradições e criar memórias. E é precisamente por isso que dias como este permanecem connosco: porque há festas que terminam quando se apagam as luzes, mas há outras que continuam a tocar dentro de nós muito depois de a última nota se ter dissipado no ar.
Manuel Queirós